terça-feira, 17 de setembro de 2013

Falsos Dilemas

FALSOS DILEMAS
Waldir Carlos Santana dos Santos (escrito em 13/09/2002 16:19, na LACE)

O tema me é sugerido por uma música do Luis Melodia.
Quantos e quais são os atuais dilemas da humanidade?
Seriam eles legítimos?
A que e a quem servem?
Um de nossos dilemas atuais é o da construção de uma sociedade inclusiva – aquela que oferece igualdade de oportunidades; aquela em que as diferenças são motivo mais que suficiente para a apreciação de nossa característica essencial que é a pluralidade. Não a pluralidade em termos de condições de vida concreta, mas a pluralidade constitucional, ideológica e existencial. Apelássemos para uma visão estritamente democrática, tal qual o termo insistentemente costuma ser utilizado, teríamos muito que lastimar – aliás, o que temos feito além de lastimar?
Óbvio, me parece, discutir a questão de uma sociedade inclusiva a partir de considerações que tratem das minorias representativas – não as estatísticas.
Pensemos no caso de nossas universidades – grandes centros de reprodução de conhecimentos científicos. A que atitudes buscamos influenciar?
Certamente, não investimos na formação de consciência crítica, pois nos é muito penosa a idéia de termos que nos deparar com as chatices e inconveniências daquelas perguntas tolas de nossos alunos – perguntas de criança. Isso me faz lembrar de Rousseau.
Tal qual crianças, alguns de nossos alunos nos chegam com o entusiasmo característico de quem é jovem; falam sobre suas expectativas; seus projetos e sobre a “utopia” de se tornarem ótimos profissionais, capazes de desvendar todos os mistérios que emperram nossos avanços humanitários. Pobres e tolos sonhadores.
Não demora muito e lançamos nossas garras sobre seus sonhos, fazendo-os despertarem para a vida adulta. Impomos limites aos seus sonhos, pois limite é fundamental. Frustramos suas expectativas, já que uma boa dose de frustração é fundamental para a constituição de uma capacidade noética compatível ao nosso tempo.
Aprendam conosco, desregrados infantes.
Cadê o segurança?
Esta nota baixa é o reflexo de sua ignorância!
Aprenda comigo, faça o que digo!
O que faço não é de sua conta!
E assim vamos progredindo, ampliando nossas instalações, criando novos cursos, contratando mais e mais funcionários. Deus abençoa os bem-sucedidos!
Não fale, não discuta, não questione, vá para o gueto de convivência; lá é o lugar permitido para sorrir, para falar em voz alta. Não toleramos seus sorrisos fáceis, é preciso fazer cara e parecer-se preocupado – essa é a máscara que nos cai bem.
Tratando a todos como iguais, massacramos os resquícios de criatividade que ainda teimam em permanecer nesse mundo das instituições. Mundo da racionalidade.
Onde está sua coerência?
Interessante notar como as nulidades têm fácil acesso ao poder!
- “Como dizia fulano, a ‘complexibilidade’ estrutural da formação geral de grupos aleatoriamente formados justifica o fato de estarmos vivenciando o atual estágio de soberania dos ideais idiossincráticos formadores das prosopopéias digitais do mundo informatizado. Reinicializemos nossas mentes, de forma a alcançarmos a plenitude do êxtase de sermos sócio-juridicamente fundamentais para o ‘alavancamento’ da integração macro-cósmica dos organismos transcendentalmente formados; blá blá blá”.
Words words words...    tantas construções de linguagem sem sentido!
E assim a linguagem nos salva, enquanto aprisiona nossos tutelados. Despejamos nossos pleonasmos e neologismos, nossas figuras de estilo, num verdadeiro giro de 360º.


Nota: O Alce que apoia as quatro patas sobre o solo é uma estátua.

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