quinta-feira, 22 de setembro de 2016

COLAÇÃO DE GRAU - PSICO - 2007

Reflexões sobre Ética e Moral, a partir da Diferença.

Waldir Carlos Santana dos Santos


Eu tenho minha vida inteiramente envolvida com a questão da diferença. Isso me tornou, para muitos, um ser contraditório, problemático e desagregador. Há, no entanto, muitos outros que me compreenderam de outras formas.
Seja eu o representante encarnado do desconforto ou o seu contrário, estou aqui, nesta noite, bem próximo de pessoas que me deram muito mais do que são capazes de imaginar. Para ser sincero, só estou aqui graças à generosidade desses, finalmente, psicólogos e colegas de uma profissão que tanto respeito, à minha maneira.
Deduzi, após ler e reler textos de Marilena Chauí, grande filósofa brasileira, que a Psicologia só tem sentido enquanto instituinte, livre de dogmatismos, revolucionária e voltada à melhoria possível da qualidade de vida dos humanos.
Dessa forma, peço licença a todos para discorrer, brevemente, sobre Diferenças, Ética e Moral, a partir do que tenho aprendido nessa vida, e com o auxílio especial de Francesco Alberoni e Salvatore Veca.
Os estudos sobre as diferenças entre os humanos, principalmente as significativas, via de regra, nos apresentam questões de ordem ética e moral, quanto às normas de conduta, às normas de convivência, assim como aos direitos e deveres de cada um dos segmentos e pessoas diretamente envolvidas. Na verdade, essa tríade sempre acompanhou a Humanidade.
A ÉTICA
No que respeita às questões éticas, entendo que não haja verdades últimas ou definitivas. A ética costuma ser entendida como um estudo ou reflexão, ora de caráter científico, ora de caráter filosófico, sempre relacionada aos costumes provisoriamente considerados corretos.
O respeito ou não às diferenças é uma daquelas questões consideradas como gerais e fundamentais do ser humano. Daí envolver aspectos éticos. Não há uma pessoa sequer igual à outra, mas, certamente, algumas dessas diferenças são significativamente determinantes do tipo de inserção social e qualidade de interações humanas que serão estabelecidas - temos de considerar as particularidades das pessoas, o momento histórico, a cultura, o tipo de organização social, ou seja, o contexto no qual a diferença está sendo estudada.
Sócrates (470-399 a.C.) foi chamado, séculos depois de sua morte, de “o fundador da moral” (entendendo aqui moral como sinônimo de interiorização das normas ditadas pela ética) porque a sua ética ia além dos costumes do povo e seus ancestrais e das leis exteriores, mas sim na convicção pessoal, adquirida através de um processo de consulta ao seu “demônio interior”, na tentativa de compreender a justiça das leis. Não foi sem motivo, portanto, que Sócrates foi condenado a beber veneno, pois desonrava os deuses e as leis da cidade-estado.
Kant (1724-1804), por seu turno, buscava uma ética universal, que se apoiasse apenas na igualdade fundamental entre os homens. Sua filosofia se volta sempre, em primeiro lugar, para o homem, e se chama filosofia transcendental porque busca encontrar no homem as condições de possibilidade a um conhecimento do conhecimento verdadeiro e do agir livre. No centro das questões éticas, aparece o dever, ou obrigação moral, uma necessidade diferente da ciência natural, ou da matemática, uma vez que representa a necessidade para uma liberdade – sua teoria não se interessava pelos aspectos exteriores, empíricos e históricos, tais como leis positivas, costumes, tradições, convenções e inclinações pessoais. Para ele, se a moral é a racionalidade do sujeito, este deve agir de acordo com o dever e somente por respeito ao dever - dever é o único motivo válido da ação moral.
A partir do pressuposto da igualdade básica entre os homens, Kant buscou uma moral igual para todos, uma moral racional, a única possível para todo e qualquer ser racional.
Para Kant os conteúdos éticos nunca são dados do exterior. Cada um de nós tem a forma do dever. Um de seus maiores méritos é o fato de ter colocado a consciência moral do indivíduo no centro das preocupações morais.
A maioria das doutrinas gregas colocava a busca da felicidade no centro das preocupações éticas. Platão, discípulo de Sócrates, acreditando na imortalidade da alma, esperava a felicidade para depois da morte, restando a esta vida “terrena” a contemplação das idéias, principalmente da idéia do Bem.
É possível afirmar que todos os grandes pensadores de nosso tempo e de tempos anteriores cujas obras nos chegam em registros, se preocuparam com a ética.
Do que é possível depreender, o lema máximo da ética é o bem comum. Nos ensinou Kant que o dever ético sempre precisa ser referido ao indivíduo. Hegel busca superar este pensamento moralista kantiano, formulando a noção de esfera da eticidade ou da vida ética. Nesta esfera, a liberdade se realiza eticamente dentro das instituições históricas e sociais, tais como família, a sociedade civil e o Estado. Para Hegel, o Estado é a realidade efetiva da idéia ética.

A MORAL
A moral, hoje em dia, já não tem seus fundamentos apenas baseados num mandamento divino ou no medo do inferno. Tampouco, tem seus fundamentos num livro ou em algum raciocínio filosófico. A moral surge continuadamente em todo ser humano do próprio fato de ele ser capaz de amar.
Os homens são seres agressivos, egoístas, ávidos, mas também são capazes de amar. São capazes de amar alguma coisa mais do que a si mesmos. Freud sintetizou esta duplicidade do ser humano atribuindo-lhe duas classes fundamentais de impulsos. Os primeiros formam o Eros, o amor; os outros impulsos estão relacionados ao Thanatos, a violência. A moral nasce, então, como dilema, como problema quando a nossa agressividade ameaça os nossos objetos de amor e, principalmente, os nossos objetos fundamentais de amor e de identificação. Para salvar o objeto de amor da sua própria agressividade, o sujeito decide então voltá-la contra si mesmo. Este é o último ensinamento de Freud, mais tarde desenvolvido por Melanie Klein. Ninguém pode esquivar-se a esta lei. A moral participa estruturalmente da vida humana, da sua mente.
Sendo assim, a moral não precisa de tábuas da lei, pois renasce continuadamente como dilema moral em cada um de nós, quando temos que escolher entre duas coisas que para nós têm valor, duas coisas que amamos. A moral ecológica nasce do nosso amor pela natureza e pelos animais e da preocupação pelo futuro dos nossos filhos. Brota quando temos de destruir, com a nossa agressividade econômica e técnica, as coisas que para nós são essenciais. E apresenta-se como dilema, pois sabemos que não podemos ter duas coisas contraditórias, o que nos força a renunciar a uma delas, a escolher entre aquilo que é bem e aquilo que é mal.
Esta experiência se torna particularmente importante em determinados momentos da nossa vida individual e coletiva, nos momentos cruciais, nos momentos de mudança, de escolha radical. E o mesmo vale para a experiência da descoberta da verdade. Nunca foi o frio intelecto a ensinar-nos para onde devíamos ir, qual seria a nossa meta final. Somente diante do drama descobrimos aquilo que para nós é essencial, aquilo que tem mais valor do que nós mesmos. É deste jeito que os valores e a moral renascem continuamente.
Esta é apenas uma raiz da moral cristã. A outra raiz é a racionalidade. Sem racionalidade a revelação pode tornar-se delírio, impulso generoso, ação insana e nociva. Só existe moral se a racionalidade se encarrega da intuição e leva a bom termo o impulso de amar e a generosidade.
A moral moderna é diferente da antiga e não tem uma só raiz, mas sim duas. De um lado o impulso, do outro a razão.
Nenhum raciocínio filosófico pode evocar o amor em suas diferentes formas: amor maternal, amizade, solidariedade social, religiosa, política, amor pátrio, amor pela natureza, amor universal. Nenhuma argumentação pode racionalmente levar alguém a agir em prol de outrem superando o próprio interesse egoísta. Esta superação acontece por um outro motivo, em outro plano. Os seres humanos não conseguem viver sem objetos de amor e de identificação. O filósofo tem que partir deste dado de fato.
Por outro lado o impulso amoroso em todas as suas formas não traz em si garantia alguma de assegurar o bem do objeto amado se não for guiado pela racionalidade. E, na complicada rede dos relacionamentos humanos individuais e coletivos, a tarefa da racionalidade torna-se imensa. Nas sociedades primitivas e nas arcaicas bastavam umas poucas normas para resolver os costumeiros problemas com vantagem para todos. Na nossa sociedade isto já não basta. As mais pormenorizadas tábuas da lei, a mais minuciosa casuística, já não conseguem mais acompanhar a incessante evolução das nossas relações concretas.
A moral surge então simultaneamente do encontro de altruísmo e razão. Historicamente, entretanto, estes dois componentes foram muito mais separados do que unidos. As diferentes culturas atribuem-lhes um peso bastante diferente. Há sociedades que dão mais importância ao impulso, à paixão, ao amor de qualquer tipo, sem perder muito tempo analisando os resultados. Em alguns países católicos, costuma-se identificar a moral com o sentimento, com a intenção. Isto leva a muitas distorções, a muitas ineficiências, e também a muitas injustiças.
Por outro lado, há sociedades e culturas que dão importância principalmente à experiência interior do dever. Para ser meritória, uma ação deve ser feita contrariando os próprios impulsos, de má vontade, forçando o emergir das tendências espontâneas do coração. Esta maneira de pensar corrige e integra a maneira de pensar precedente. Por si só, entretanto, ela também leva a distorções e até a monstruosidades. Como irá crescer um menino criado pela mãe apenas por mero dever? Que tipo de relacionamento poderemos ter com os outros se estivermos continuamente violentando o nosso desejo de espontaneidade e de felicidade?
Uma vez que a moral tem duas raízes, todo sistema que tende a construí-la sobre uma só dessas raízes é fadado a ressecá-la. Nossa vida moral deve constantemente tirar a seiva de sua dupla raiz - isso significa, portanto, de paixão e de razão, um difícil, mas necessário encontro.
Com essa síntese, cabe aqui a pergunta fundamental a vocês, meus eternos e queridos colegas, de quem jamais me esquecerei, não somente pela honraria de hoje, mas, principalmente pelos momentos em que estudamos, nos angustiamos, divergimos e, por que não dizer, nos divertimos:
A quem servirá esse conhecimento alcançado nesses cinco anos de Graduação em Psicologia?
Com a autenticidade que me é peculiar, não tenho qualquer constrangimento em afirmar que vocês, um a um, uma a uma, escreveram boas páginas de satisfação em minha vida. Me possibilitaram a mais bem-sucedida experiência docente, cuja certificação é a generosidade de me permitirem estar aqui, neste momento tão importante em nossas vidas. Eu vejo pais, mães, filhos, filhas, irmãos, irmãs, avós, namorados, namoradas, esposas, maridos, parentes e colegas com um ar inconfundível de orgulho. Imagino o quanto muitos tiveram de abdicar da vontade de estarem mais próximos fisicamente, dos descréditos, dos incentivos e das cobranças.
No final das contas, não tenho dúvidas de que tudo valeu muito a pena, porque vocês formam um grupo muito bonito e competente. Sempre acreditei e continuarei acreditando em vocês, da mesma forma que as portas do que me for possível continuarão abertas – na alegria e na tristeza; para brigar ou comemorar.
Vocês têm um belo e longo caminho pela frente; torço para que façam dele um eterno aprendizado e jamais se esqueçam de que no dilema que já mencionei, reflitam muito, respeitem o outro, busquem formas de se realizarem em sua profissão e reconheçam que nada tem muito sentido se não temos a capacidade de nos importarmos com nossos semelhantes.

SEJAM BEM-VINDOS AO MUNDO DAS PESSOAS SÉRIAS!!!!!!!!!!!!!!!


De São Paulo para São Bernardo - dezembro de 2007

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Grooeland: A Copa do Mundo é nossa.

Grooeland: A Copa do Mundo é nossa.: Após 64 anos, o Brasil novamente é sede de uma Copa do Mundo de futebol. A primeira vez, em 1950 , o torneio contou com apenas 13 seleçõe...

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Falsos Dilemas

FALSOS DILEMAS
Waldir Carlos Santana dos Santos (escrito em 13/09/2002 16:19, na LACE)

O tema me é sugerido por uma música do Luis Melodia.
Quantos e quais são os atuais dilemas da humanidade?
Seriam eles legítimos?
A que e a quem servem?
Um de nossos dilemas atuais é o da construção de uma sociedade inclusiva – aquela que oferece igualdade de oportunidades; aquela em que as diferenças são motivo mais que suficiente para a apreciação de nossa característica essencial que é a pluralidade. Não a pluralidade em termos de condições de vida concreta, mas a pluralidade constitucional, ideológica e existencial. Apelássemos para uma visão estritamente democrática, tal qual o termo insistentemente costuma ser utilizado, teríamos muito que lastimar – aliás, o que temos feito além de lastimar?
Óbvio, me parece, discutir a questão de uma sociedade inclusiva a partir de considerações que tratem das minorias representativas – não as estatísticas.
Pensemos no caso de nossas universidades – grandes centros de reprodução de conhecimentos científicos. A que atitudes buscamos influenciar?
Certamente, não investimos na formação de consciência crítica, pois nos é muito penosa a idéia de termos que nos deparar com as chatices e inconveniências daquelas perguntas tolas de nossos alunos – perguntas de criança. Isso me faz lembrar de Rousseau.
Tal qual crianças, alguns de nossos alunos nos chegam com o entusiasmo característico de quem é jovem; falam sobre suas expectativas; seus projetos e sobre a “utopia” de se tornarem ótimos profissionais, capazes de desvendar todos os mistérios que emperram nossos avanços humanitários. Pobres e tolos sonhadores.
Não demora muito e lançamos nossas garras sobre seus sonhos, fazendo-os despertarem para a vida adulta. Impomos limites aos seus sonhos, pois limite é fundamental. Frustramos suas expectativas, já que uma boa dose de frustração é fundamental para a constituição de uma capacidade noética compatível ao nosso tempo.
Aprendam conosco, desregrados infantes.
Cadê o segurança?
Esta nota baixa é o reflexo de sua ignorância!
Aprenda comigo, faça o que digo!
O que faço não é de sua conta!
E assim vamos progredindo, ampliando nossas instalações, criando novos cursos, contratando mais e mais funcionários. Deus abençoa os bem-sucedidos!
Não fale, não discuta, não questione, vá para o gueto de convivência; lá é o lugar permitido para sorrir, para falar em voz alta. Não toleramos seus sorrisos fáceis, é preciso fazer cara e parecer-se preocupado – essa é a máscara que nos cai bem.
Tratando a todos como iguais, massacramos os resquícios de criatividade que ainda teimam em permanecer nesse mundo das instituições. Mundo da racionalidade.
Onde está sua coerência?
Interessante notar como as nulidades têm fácil acesso ao poder!
- “Como dizia fulano, a ‘complexibilidade’ estrutural da formação geral de grupos aleatoriamente formados justifica o fato de estarmos vivenciando o atual estágio de soberania dos ideais idiossincráticos formadores das prosopopéias digitais do mundo informatizado. Reinicializemos nossas mentes, de forma a alcançarmos a plenitude do êxtase de sermos sócio-juridicamente fundamentais para o ‘alavancamento’ da integração macro-cósmica dos organismos transcendentalmente formados; blá blá blá”.
Words words words...    tantas construções de linguagem sem sentido!
E assim a linguagem nos salva, enquanto aprisiona nossos tutelados. Despejamos nossos pleonasmos e neologismos, nossas figuras de estilo, num verdadeiro giro de 360º.


Nota: O Alce que apoia as quatro patas sobre o solo é uma estátua.