Reflexões
sobre Ética e Moral, a partir da Diferença.
Waldir Carlos Santana dos Santos
Eu tenho minha vida inteiramente envolvida com a
questão da diferença. Isso me tornou, para muitos, um ser contraditório,
problemático e desagregador. Há, no entanto, muitos outros que me compreenderam
de outras formas.
Seja eu o representante encarnado do desconforto ou
o seu contrário, estou aqui, nesta noite, bem próximo de pessoas que me deram
muito mais do que são capazes de imaginar. Para ser sincero, só estou aqui graças
à generosidade desses, finalmente, psicólogos e colegas de uma profissão que
tanto respeito, à minha maneira.
Deduzi, após ler e reler textos de Marilena Chauí,
grande filósofa brasileira, que a Psicologia só tem sentido enquanto
instituinte, livre de dogmatismos, revolucionária e voltada à melhoria possível
da qualidade de vida dos humanos.
Dessa forma, peço licença a todos para discorrer,
brevemente, sobre Diferenças, Ética e Moral, a partir do que tenho aprendido
nessa vida, e com o auxílio especial de Francesco Alberoni e Salvatore Veca.
Os estudos sobre as diferenças entre os humanos,
principalmente as significativas, via de regra, nos apresentam questões de
ordem ética e moral, quanto às normas de conduta, às normas de convivência,
assim como aos direitos e deveres de cada um dos segmentos e pessoas diretamente
envolvidas. Na verdade, essa tríade sempre acompanhou a Humanidade.
A ÉTICA
No que respeita às questões éticas, entendo que não haja
verdades últimas ou definitivas. A ética costuma ser entendida como um estudo
ou reflexão, ora de caráter científico, ora de caráter filosófico, sempre
relacionada aos costumes provisoriamente considerados corretos.
O respeito ou não às diferenças é uma daquelas questões
consideradas como gerais e fundamentais do ser humano. Daí envolver aspectos
éticos. Não há uma pessoa sequer igual à outra, mas, certamente, algumas dessas
diferenças são significativamente determinantes do tipo de inserção social e
qualidade de interações humanas que serão estabelecidas - temos de considerar as
particularidades das pessoas, o momento histórico, a cultura, o tipo de
organização social, ou seja, o contexto no qual a diferença está sendo
estudada.
Sócrates (470-399
a .C.) foi chamado, séculos depois de sua morte, de “o
fundador da moral” (entendendo aqui moral como sinônimo de interiorização das
normas ditadas pela ética) porque a sua ética ia além dos costumes do povo e
seus ancestrais e das leis exteriores, mas sim na convicção pessoal, adquirida
através de um processo de consulta ao seu “demônio interior”, na tentativa de
compreender a justiça das leis. Não foi sem motivo, portanto, que Sócrates foi
condenado a beber veneno, pois desonrava os deuses e as leis da cidade-estado.
Kant (1724-1804), por seu turno, buscava uma ética universal,
que se apoiasse apenas na igualdade fundamental entre os homens. Sua filosofia
se volta sempre, em primeiro lugar, para o homem, e se chama filosofia transcendental porque busca
encontrar no homem as condições de possibilidade a um conhecimento do
conhecimento verdadeiro e do agir livre. No centro das questões éticas, aparece
o dever, ou obrigação moral, uma
necessidade diferente da ciência natural, ou da matemática, uma vez que
representa a necessidade para uma liberdade – sua teoria não se interessava
pelos aspectos exteriores, empíricos e históricos, tais como leis positivas,
costumes, tradições, convenções e inclinações pessoais. Para ele, se a moral é
a racionalidade do sujeito, este deve agir de acordo com o dever e somente por
respeito ao dever - dever é o único motivo válido da ação moral.
A partir do pressuposto da igualdade básica entre os homens,
Kant buscou uma moral igual para todos, uma moral racional, a única possível
para todo e qualquer ser racional.
Para Kant os conteúdos éticos nunca são dados do exterior. Cada
um de nós tem a forma do dever. Um de seus maiores méritos é o fato de ter
colocado a consciência moral do indivíduo no centro das preocupações morais.
A maioria das doutrinas gregas colocava a busca da felicidade no
centro das preocupações éticas. Platão, discípulo de Sócrates, acreditando na
imortalidade da alma, esperava a felicidade para depois da morte, restando a
esta vida “terrena” a contemplação das idéias, principalmente da idéia do Bem.
É possível afirmar que todos os grandes pensadores de nosso
tempo e de tempos anteriores cujas obras nos chegam em registros, se
preocuparam com a ética.
Do que é possível depreender, o lema máximo da ética é o bem
comum. Nos ensinou Kant que o dever ético sempre precisa ser referido ao
indivíduo. Hegel busca superar este pensamento moralista kantiano, formulando a
noção de esfera da eticidade ou da vida ética. Nesta esfera, a liberdade se
realiza eticamente dentro das instituições históricas e sociais, tais como
família, a sociedade civil e o Estado. Para Hegel, o Estado é a realidade
efetiva da idéia ética.
A MORAL
A moral, hoje em dia, já não tem seus fundamentos apenas
baseados num mandamento divino ou no medo do inferno. Tampouco, tem seus
fundamentos num livro ou em algum raciocínio filosófico. A moral surge
continuadamente em todo ser humano do próprio fato de ele ser capaz de amar.
Os homens são seres agressivos, egoístas, ávidos, mas também são
capazes de amar. São capazes de amar alguma coisa mais do que a si mesmos. Freud
sintetizou esta duplicidade do ser humano atribuindo-lhe duas classes
fundamentais de impulsos. Os primeiros formam o Eros, o amor; os outros
impulsos estão relacionados ao Thanatos, a violência. A moral nasce,
então, como dilema, como problema quando a nossa agressividade ameaça os nossos
objetos de amor e, principalmente, os nossos objetos fundamentais de amor e de
identificação. Para salvar o objeto de amor da sua própria agressividade, o
sujeito decide então voltá-la contra si mesmo. Este é o último ensinamento de
Freud, mais tarde desenvolvido por Melanie Klein. Ninguém pode esquivar-se a
esta lei. A moral participa estruturalmente da vida humana, da sua mente.
Sendo assim, a moral não precisa de tábuas da lei, pois renasce
continuadamente como dilema moral em cada um de nós, quando temos que escolher
entre duas coisas que para nós têm valor, duas coisas que amamos. A moral
ecológica nasce do nosso amor pela natureza e pelos animais e da preocupação
pelo futuro dos nossos filhos. Brota quando temos de destruir, com a nossa
agressividade econômica e técnica, as coisas que para nós são essenciais. E
apresenta-se como dilema, pois sabemos que não podemos ter duas coisas
contraditórias, o que nos força a renunciar a uma delas, a escolher entre
aquilo que é bem e aquilo que é mal.
Esta experiência se torna particularmente importante em
determinados momentos da nossa vida individual e coletiva, nos momentos
cruciais, nos momentos de mudança, de escolha radical. E o mesmo vale para a
experiência da descoberta da verdade. Nunca foi o frio intelecto a ensinar-nos
para onde devíamos ir, qual seria a nossa meta final. Somente diante do drama
descobrimos aquilo que para nós é essencial, aquilo que tem mais valor do que
nós mesmos. É deste jeito que os valores e a moral renascem continuamente.
Esta é apenas uma raiz da moral cristã. A outra raiz é a
racionalidade. Sem racionalidade a revelação pode tornar-se delírio, impulso
generoso, ação insana e nociva. Só existe moral se a racionalidade se encarrega
da intuição e leva a bom termo o impulso de amar e a generosidade.
A moral moderna é diferente da antiga e não tem uma só raiz, mas
sim duas. De um lado o impulso, do outro a razão.
Nenhum raciocínio filosófico pode evocar o amor em suas
diferentes formas: amor maternal, amizade, solidariedade social, religiosa,
política, amor pátrio, amor pela natureza, amor universal. Nenhuma argumentação
pode racionalmente levar alguém a agir em prol de outrem superando o próprio
interesse egoísta. Esta superação acontece por um outro motivo, em outro plano.
Os seres humanos não conseguem viver sem objetos de amor e de identificação. O
filósofo tem que partir deste dado de fato.
Por outro lado o impulso amoroso em todas as suas formas não
traz em si garantia alguma de assegurar o bem do objeto amado se não for guiado
pela racionalidade. E, na complicada rede dos relacionamentos humanos
individuais e coletivos, a tarefa da racionalidade torna-se imensa. Nas
sociedades primitivas e nas arcaicas bastavam umas poucas normas para resolver
os costumeiros problemas com vantagem para todos. Na nossa sociedade isto já
não basta. As mais pormenorizadas tábuas da lei, a mais minuciosa casuística,
já não conseguem mais acompanhar a incessante evolução das nossas relações
concretas.
A moral surge então simultaneamente do encontro de altruísmo
e razão. Historicamente, entretanto, estes dois componentes foram muito
mais separados do que unidos. As diferentes culturas atribuem-lhes um peso
bastante diferente. Há sociedades que dão mais importância ao impulso, à
paixão, ao amor de qualquer tipo, sem perder muito tempo analisando os
resultados. Em alguns países católicos, costuma-se identificar a moral com o
sentimento, com a intenção. Isto leva a muitas distorções, a muitas
ineficiências, e também a muitas injustiças.
Por outro lado, há sociedades e culturas que dão importância
principalmente à experiência interior do dever. Para ser meritória, uma ação
deve ser feita contrariando os próprios impulsos, de má vontade, forçando o
emergir das tendências espontâneas do coração. Esta maneira de pensar corrige e
integra a maneira de pensar precedente. Por si só, entretanto, ela também leva
a distorções e até a monstruosidades. Como irá crescer um menino criado pela
mãe apenas por mero dever? Que tipo de relacionamento poderemos ter com os
outros se estivermos continuamente violentando o nosso desejo de espontaneidade
e de felicidade?
Uma vez que a moral tem duas raízes, todo sistema que tende a
construí-la sobre uma só dessas raízes é fadado a ressecá-la. Nossa vida moral
deve constantemente tirar a seiva de sua dupla raiz - isso significa, portanto,
de paixão e de razão, um difícil, mas necessário encontro.
Com essa síntese, cabe aqui a pergunta fundamental a vocês, meus
eternos e queridos colegas, de quem jamais me esquecerei, não somente pela
honraria de hoje, mas, principalmente pelos momentos em que estudamos, nos
angustiamos, divergimos e, por que não dizer, nos divertimos:
A quem servirá esse conhecimento alcançado nesses cinco anos de
Graduação em Psicologia?
Com a autenticidade que me é peculiar, não tenho qualquer
constrangimento em afirmar que vocês, um a um, uma a uma, escreveram boas
páginas de satisfação em minha vida. Me possibilitaram a mais bem-sucedida
experiência docente, cuja certificação é a generosidade de me permitirem estar
aqui, neste momento tão importante em nossas vidas. Eu vejo pais, mães, filhos,
filhas, irmãos, irmãs, avós, namorados, namoradas, esposas, maridos, parentes e
colegas com um ar inconfundível de orgulho. Imagino o quanto muitos tiveram de
abdicar da vontade de estarem mais próximos fisicamente, dos descréditos, dos
incentivos e das cobranças.
No final das contas, não tenho dúvidas de que tudo valeu muito a
pena, porque vocês formam um grupo muito bonito e competente. Sempre acreditei
e continuarei acreditando em vocês, da mesma forma que as portas do que me for
possível continuarão abertas – na alegria e na tristeza; para brigar ou
comemorar.
Vocês têm um belo e longo caminho pela frente; torço para que
façam dele um eterno aprendizado e jamais se esqueçam de que no dilema que já
mencionei, reflitam muito, respeitem o outro, busquem formas de se realizarem
em sua profissão e reconheçam que nada tem muito sentido se não temos a
capacidade de nos importarmos com nossos semelhantes.
SEJAM BEM-VINDOS AO MUNDO DAS PESSOAS SÉRIAS!!!!!!!!!!!!!!!
De São Paulo para São Bernardo - dezembro de 2007
